No segmento de alimentos o cenário está desenhado para os grandes formatos: em mercados maduros o quadro é cada vez mais complicado pelas mudanças dos hábitos e atitudes dos consumidores e nos mercados emergentes os hipers e supercenters cumprem seu papel de oferecer tudo num só local e de forma muito promocional, encantando os consumidores com seu recém-adquirido poder de compra.
Em todos os mercados esses formatos enfrentam os desafios da expansão da alimentação fora do lar e do avanço das soluções híbridas de internet e ponto de coleta de produtos. Esse poderia ser o “resumo da síntese” das discussões trazidas no artigo anterior sobre os desafios dos grandes formatos em alimentação.
Em outras categorias a situação é diferente e os maiores concorrentes, de forma geral, são os canais digitais e a conveniência com as alternativas que oferecem, aliadas a uma crescente flexibilidade na avaliação de produtos, preços e promoções.
O resultado desse cenário é uma crescente junto com a irreversível pressão sobre a rentabilidade das operações de varejo, enfrentada pelo foco obsessivo na melhoria da eficiência e produtividade por parte de varejistas e seus fornecedores.
Esse cenário em algumas categorias, como informática, livros, eletrodomésticos e eletrônicos, já tirou do mercado marcas que foram em algum momento ícones com sua proposta de oferecer tudo num só lugar, como B. Dalton, Borders, CompUSA e Circuit City. E Best Buy está sofrendo para se reinventar por conta do forte crescimento das vendas via ecommerce que afeta particularmente esse segmento de eletroeletrônicos.
Por ser uma categoria de produtos quase que commodities em sua concepção, diretamente comparáveis entre si em suas especificações e condições, o canal digital se mostra particularmente interessante para o consumidor que pode comparar diretamente ofertas e produtos e optar por aquela marca, site ou loja que ofereça o melhor binômio preço-valor. Esse processo enseja uma mudança estrutural nessa categoria, que se agrava com o movimento de algumas marcas, como recurso extremo, criando canais exclusivos, via lojas ou internet, próprias ou através de franquias, como é o caso global de Samsung, Sony, Bosch, Electrolux ou a icônica Apple.
No setor de moda e vestuário o quadro não tem sido muito diferente, afetando principalmente as lojas de departamentos que tentam há muitos anos se reinventar e com pouco ou relativo sucesso. A perda de mercado desses formatos nos EUA é absolutamente consistente nos últimos vinte anos tanto assim que em muitos casos partiram para a busca de formatos mais compactos, como foi o caso da Bloomingdale’s ou Macy’s nos EUA e Selfridges na Inglaterra.
Em países como França, Itália, Espanha, Inglaterra, China, Índia, Japão, Singapura, Chile, México ou Austrália, o formato ainda mantém sua atração, mas enfrenta crescente concorrência de novos conceitos derivados do Fast Fashion, como Zara, H&M, Forever 21, Uniqlo e outros mais.
No Brasil as lojas tradicionais de departamentos, como Mappin e Mesbla, sucumbiram por conta de sua incapacidade de se reinventarem, agravada pelos problemas de gestão e governança e foram substituídas pelos formatos orientados para moda.
As maiores empresas do setor, C&A, Riachuelo, Marisa e Renner, tiveram a competência de desenvolver formatos híbridos que incorporaram elementos do Fast Fashion, porém adequados às características locais do mercado, que exigiram extrema capacidade para atuar de forma agressiva no crédito, o que tornou o Brasil um exportador desse modelo para outros mercados emergentes.
No presente essas redes têm dedicado crescente atenção ao desenvolvimento de formatos mais compactos e flexíveis que permita manter o ritmo de crescimento e estarem presentes em regiões com potencial em crescimento que não justificariam uma loja convencional, além de desenvolverem alternativas focadas em categorias, como é o caso da Marisa com roupa íntima, Renner com jeans e como C&A ensaiou no passado.
No segmento de materiais para construção o problema global não tem a mesma magnitude das outras categorias uma vez que a demanda por tudo num só local, quando existe a demanda concentrada por conta de uma reforma ou construção, é uma real demanda dos consumidores. Ainda assim, existe uma tendência de desenvolvimento de formatos mais compactos e focados, viabilizando visitas mais rápidas por consumidores que cada vez têm menos tempo.
Por conta disso, empresas como Home Depot ou Lowes nos Estados Unidos ou Saint Gobain e Adeo, controlador da Leroy Merlin na Europa, operam formatos mais compactos visando atender demandas mais específicas e focadas, em alguns casos usando suas próprias marcas principais ou através de outras marcas, caracterizando a diferença de conceitos.
Na realidade brasileira esse setor tem entre os cinco maiores operadores quatro grupos internacionais e essas operações têm enfrentado um problema adicional na questão imobiliária por conta da valorização nos últimos anos e a disputa de áreas com shopping centers, hospitais e projetos multiuso que indicariam a necessidade de acelerar o desenvolvimento de alternativas mais compactas, em especial se integradas com uso do ecommerce, um tema ainda distante das alternativas estratégicas dos principais operadores.
De forma geral deve ser considerado, em todos os segmentos, que o universo digital criou uma nova realidade que tenderá a acelerar a revisão de modelos e formatos que, naturalmente, já seriam passíveis de revisão e quanto mais rápido houver esse movimento estratégico pelas empresas, mais chances de continuar um player relevante no varejo micro-orientado.
Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral da GS&MD – Gouvêa de Souza.
http://www.gsmd.com.br/pt/eventos/momentum/o-desafio-dos-grandes-formatos-parte-2