Para fazer frente ao número crescente de supermercados que oferecem padarias agregadas às suas operações, empresários da panificação reinventam o negócio. Modernizar o espaço, agregar a venda de alimentação, sair do trivial café com leite ao inserir o conceito de butique, expandir por meio de franquias e até optar por venda sem a necessidade de o consumidor sair de seu automóvel (drive thru) são as estratégias que têm surtido efeito.
Dominado hoje por pequenos e médios empresários, geralmente com administração familiar, as padarias também começam a entrar em um novo patamar com as franquias. Duas das que têm despontado no segmento são a Pão to Go, com seu modelo inovador de drive thru, e a carioca Uno & Due, que vai além do tradicional pão francês. No caso da mineira, a operação difere-se, pois o consumidor não precisa sair do carro para fazer as suas compras e, segundo Tom Ricetti, o cliente gasta, em média, 40 segundos para fazer as compras. “Quando eu tive a ideia, queria tornar a rotina de ir à padaria uma coisa prática. Deu certo”, diz ele.
Hoje, a marca conta com cinco unidades abertas e outras cinco a serem inauguradas – três ainda neste mês. Há, ainda, mais de 100 contratos assinados com franqueados. “Não estamos vendendo apenas uma marca de franquia, e sim uma cultura”, explicou Ricetti.
O empreendedorismo de Ricetti chama atenção, tanto que a Pão to Go vai aos Estados Unidos. A perspectiva é ter quatro lojas, que serão inauguradas ainda este ano, além de um franqueador máster na Argentina. “Pode parecer estranho, mas abrir uma franquia nos EUA é tão burocrático quanto aqui”, afirmou. Mesmo com os percalços em expandir operação fora do Brasil, o fundador da Pão to Go fez questão de ressaltar o potencial do seu formato drive thru. “Nos EUA existem cerca de 211 mil drive thrus. Aqui no Brasil nós não chegamos a dois mil.” Mas Ricetti não para por aí. A marca tem agora dois formatos: uma cafeteria e a Pão to Go Express. “Na cafeteria vamos empregar o mesmo conceito do drive thru: atendimento rápido e pão feito na hora”, explicou.
Ricetti, que ampliou os produtos ofertados em suas franquias, aumentou o tíquete médio de R$ 10 para R$ 12,50. Em um “futuro próximo”, a Pão to Go estuda a inserção de um serviço de delivery, além de entrega feita por aviões não tripulados – os drones. “Sobre os drones estamos fazendo alguns testes. Eles conseguem carregar até três quilos e meio. Para ser colocado em prática, porém, nós temos de esperar a regulamentação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)”, concluiu.
Concorrência
Quem também aposta no franchising para a expansão da marca é a carioca Uno & Due. Fundada em 1993, a operação conta hoje 18 pontos de vendas, sendo 10 em seu estado sede, além de oito em São Paulo. A empresa virou franquia em 2011 e a padaria Uno & Due surgiu no mercado após a identificação de uma demanda.
“Começamos do zero mesmo. Depois de muita análise de mercado percebemos o tipo de produto e atendimento que melhor se encaixava com o público”, explicou o máster franqueado da rede, Eguiberto Rissi.
Diferentemente de uma padaria tradicional, o carro-chefe da Uno & Due são os lanches. “O sanduíche na baguete é o nosso carro-chefe e acompanha a marca desde o início. Mas temos também uma vasta linha de produtos que atende os clientes a qualquer horário. Das primeiras horas da manhã, com vasto menu de café, aos lanches para todas as horas do dia”, disse o franqueador.
Para este ano, a rede tem a perspectiva de abrir novas operações no segmento. “Até o final de 2014 estamos prevendo a abertura de mais seis franquias, distribuídas pelo Estado do Rio de Janeiro”. Rissi quando questionado sobre o potencial desse segmento, respondeu dizendo que não conhece alguém que não vá a uma padaria. “O segmento de padarias é um nicho muito bom. Tanto pela rentabilidade, quanto pela aceitação do público. Afinal, você conhece alguém que fique mais de uma semana sem ir à padaria?”
Novo conceito?
Na opinião do sócio-diretor de Food & Service da consultoria GS&MD – Gouvêa de Souza, Sérgio Molinari, o maior concorrente das padarias, hoje em dia, é a falta de modernização. “Acho arriscado dizer que os principais concorrentes das padarias são os supermercados. Nos últimos seis anos, esse segmento cresceu, em média, entre 12% e 13%, índice muito acima do supermercadista”, explicou ele.
Conforme a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), as padarias hoje representam apenas 2,8% do faturamento das redes, isso em 2012. Contudo, segundo o especialista, a área que mais cresce dentro de uma padaria é a de food service (refeições, pizzas e lanches). “Esse nicho cresceu dois dígitos durante um bom tempo, só no ano passado é que foi um pouco mais fraco, com crescimento de 9%”. Para Molinari, nada substitui o atendimento personalizado e intimista das padarias mais tradicionais. “Se você for à padaria de um supermercado, não será chamado pelo nome. O atendente não vai lhe servir um pedaço dos frios que está comprando, isso geralmente acontece apenas nas padarias tradicionais.”
O cenário não significa que as redes supermercadistas demonstrem incapacidade de ter um bom atendimento. “A padaria do Pão de Açúcar localizado no shopping Iguatemi, por exemplo, tem produtos excelentes, que você não encontra em qualquer lugar”, disse.
A premissa de atendimento diferenciado também se aplica às franquias. Para Sérgio Molinari, como existe uma série de normas e padrões a serem seguidos, as marcas que aderiram ao sistema de franchising para crescer podem “perder” para o bom e velho atendimento das operações familiares. “A grande maioria dos proprietários de padaria são portugueses, ou tem descendência. Logo eles primam por conhecer os seus clientes pelo nome e pelas exigências que eles fazem”, argumentou. Ao que questionou: “já perguntaram o seu nome em um supermercado?”.
Fonte: DCI
http://www.gsmd.com.br/pt/noticias/food-service/padarias-vao-muito-alem-do-cafe-com-leite